© Nuno Andrade, cortesia do autor.


NUNO ANDRADE, GINJAL


7.6.18



É frequente os fotógrafos lamentarem o modo como a rotina anestesia o olhar. Uma solução eficiente mas impraticável é a de pararem de fotografar por uns tempos. Outra terapêutica, mais apreciada, mas nem sempre possibilitada pelas circunstâncias, é a de irem pescar para outro lado. A visão de Nuno Andrade mantem-se porém refrescante sem fazer uma coisa nem a outra. Por um lado, é infatigável; por outro, a exemplo de um aforismo de Garry Winogrand (“I photograph where I am”), todo o seu trabalho tem sido feito bem perto de casa, nos arredores de Almada.

Apesar do registo documental, o seu ponto de partida nunca é o da reportagem. E apesar de uma pessoalidade declarada, a sua aproximação ao mundo nunca é solipsista, mas social. Mais interessado no que está diante da câmara do que no que está atrás dela, essa pessoalidade não deixa de se caracterizar por um empenho abnegado por tratar cada assunto de modo decente e, nalgum sentido da expressão, belo.

Organizando o seu processo em ciclos de ano, ano e meio, poderíamos descrevê-lo como um meio-fundista. Talvez um dia venhamos a conhecer as imagens da flânerie suburbana que precede o seu tropeçar impremeditadamente em lugares que estava farto de conhecer — lugares circunscritos nos quais acaba por se fixar. Foi assim dar àquele enclave negligenciado a que na Margem Sul qualquer neto de pescador deve conhecer como “Ponta do Mato”, onde acabou por se entrosar com meia dúzia de ameijoeiros, documentando a sua lida anacrónica e inglória (em Maré Baixa). E não seria muito diferente a forma como se lhe apresentou a série Ginjal, realizada no salão de bailes do estabelecimento epónimo, em Cacilhas, onde, enquanto deambulava, o fotógrafo entrou certa tarde, muitos anos depois de lá ter estado, só porque estava a chover. Saiu de lá cerca de ano e meio depois, com uns intervalos pelo meio, a que todos chamamos a semana laboral.

A contiguidade com o Tejo é uma característica comum destes lugares. Ainda que as águas dos rios sejam um tropo conhecido da passagem das horas, outro aspecto que caracteriza ambos os trabalhos é, todavia, o de capturarem uma temporalidade desfasada. Nuno Andrade descreve a experiência de entrar no primeiro andar do antigo ‘Floresta do Ginjal’ como a de entrar numa cápsula do tempo. As suas imagens produzem uma analogia eficaz com essa experiência. Não é bem a de uma percepção do atemporal, nem me parece ser o caso de o elenco destas imagens viver preso no passado. Muito pelo contrário. Há um sentido fundamental em que estas pessoas não estão presas no passado: o de que estão vivinhas da silva.

Um dos aspectos extraordinários deste trabalho é o casting paciente e meticuloso levado a cabo nestas soirées malandras, pairando nas quais o cheiro suavemente intoxicante da maresia e do vinho verde talvez contribua para suspender todos os juízos morais, todos os remorsos, toda a culpa, num carnaval ininterrupto. Por questões reputacionais, muitos dos presentes nestes bailes não autorizaram, apesar disso, ser fotografados; e, no entanto, todos os fotografados deram a sua permissão. Mas, de entre os últimos, Nuno Andrade apenas se interessou por alguns — aqueles que personificam uma certa não desistência, ainda que desesperada; uma busca da alegria, ainda que trágica — e acertou na mouche. Descreve-os como «personagens fascinantes: amantes, sonhadores, solitários», personagens de uma meditação sobre o direito à busca da felicidade e da liberdade, o que, não obstante as evocações de Café Lehmitz, de Anders Petersen, aqui mais sanguíneas e menos pessimistas, dá ao conjunto uma nota de esperança.

Poucas coisas há tão ternas, bonitas, mas sempre tristes e meio cómicas, e por isso mesmo tão contraditórias e tocantes, como a paixão reencontrada quando já menos se esperava; como o bambolear reumático, cardíaco, suado, ilícito, pândego, enquanto muitos da sua geração começam já a morrer. Dançando (no sentido literal da palavra) com estes pares de modo merecer tais imagens, Nuno Andrade compreendeu de perto um contraste em torno do qual se equilibra todo o conjunto: um contraste desarmante entre olhares ultra absortos e detalhes ultra expressivos de maquilhagem e indumentária, contraste que dá conta de uma de uma interioridade castigada mas decidida, ainda, a mais uma dança. Mais uma dança, mais uma volta, mais uma oportunidade para a alegria. As personagens de Ginjal têm a morte nos olhos mas desafiam-na.



Texto escrito para a folha de sala da exposição de Nuno Andrade na Pequena Galeria, em Lisboa, em Junho de 2018.

Ver também: nunoandrade.pt