Escrevi-te que «há um braço-de-ferro condutor cujas forças opostas, o fotógrafo e a paisagem da sua vida, se anulam no plano da imagem» (se calhar é isso que quer dizer, «a tension so exact that it is peace»). Mas um episódio recente fez-me repensar as coisas. Andava a fotografar na Margem Sul e veio à memória aquele trecho do Zaratustra. Reparei na minha dança absurda para determinar a imagem projectada no visor como uma maneira viável de transformar todo o “foi” num “assim eu quis”. Esta ideia fez-me sorrir porque eu estava na Cruz de Pau e apercebi-me da ironia. A questão é que nada se transforma. Tudo se perde. A gente faz as imagens e o passado não se altera. (Talvez piore.) Nesse momento, pareceu-me ver naquelas fachadas estúpidas a sombra de um rancor sem referente. Foi por instantes como se adquirissem fisionomias. (...) Nos últimos meses, percebi ainda outra coisa que tem mudado a minha perspectiva. (...) O mais que um fotógrafo faz é aceitar as coisas como são. Dou graças por esta conclusão porque me libertou para outras fixações, que me distraem das saudades tuas. Por exemplo, já ninguém sabe muito bem quem escavacou a paisagem. É claro que alguém o fez, mas quando o fotógrafo chega os danos parecem ter sido feitos por mão invisível. E ocorreu-me quão parecido isto é com as pessoas. Tornar-se quem se é depende tanto das nossas escolhas e firmeza de propósitos, ou falta dela, quanto depende do contexto, de acidentes, da negligência, do desmazelo, da oportunidade, da violência alheia, da estupidez... Talvez a vida, amor, não passe desta acção impiedosa, sem autoria, por mão da qual as cidades e as pessoas se vão avariando aos poucos. Tu, eu, toda a gente em todo o lado, Cruz de Pau ou Nova Iorque, todos em lista de espera no longo processo de avaria. E então comecei a ver isso — a anonimidade da avaria — em todos os lugares por onde fosse, em cada coisa, em toda a gente, na minha própria vida. (...)




H.B.