Estas imagens foram feitas entre 2018 e 2019 por toda a Península de Setúbal. Queria aprender a aceitar aquela paisagem vulgar, disfuncional e algo hostil, da qual tinha procurado separar-me ao longo da minha vida adulta, nem sempre sem me aperceber de que o fazia. Não gostar da paisagem do meu passado era de certo modo ter aversão por mim mesmo. Tive vergonha desse sentimento. Quis abraçar as suas falhas, da mesma maneira que, como disse alguém, devemos saber aceitar as imperfeições no nosso rosto. Olhando para as imagens que fiz, lembro-me da resposta de Garry Winogrand quando lhe perguntaram se aspirava a ser “transparente”, como Walker Evans. Respondeu que “preferia não existir” mas “estou encalhado em ser eu”. Estas imagens mostram-me isso mesmo. Não só uma paisagem à qual estou preso (preso como um pombo às suas coordenadas) mas também uma fisionomia da qual não posso libertar-me, e que devo saber aceitar. São auto-retratos em estilo topográfico. Espelhos e janelas. As duas coisas.


Estrada e Fantasmas está publicado em livro pela Lebop Books. Foi finalista da Bienal de Fotografira de Vila Franca de Xira de 2020.