GUIDI, STEINMETZ, JOHANSSON

18-I2-18

John Gossage disse numa entrevista recente à Zum, referindo-se à superabundância de fotolivros, que “é quase como se você pegasse uma senha e chegasse sua hora de lançá-lo”. Talvez a urgência da publicação seja um sintoma do estado da arte. Uma facilitação de processos, que passa por pragmatismo, tem gerado a ilusão de a fotografia poder dispensar a paciência e a tenacidade. Ao mesmo tempo, prevalece nos artistas um certo pânico da obscuridade, um medo de perder a vez, de desaparecer. Nos livros que mais me marcaram no ano que passou, entre eles, os três que destaco de seguida, esse pânico parece não ter lugar. Um motivo para os destacar em vez de outros, igualmente notáveis, além do facto de me parecerem livros extraordinários a vários títulos, é o de exemplificarem, melhor que outros, virtudes menosprezadas. De novo, a paciência, a tenacidade e, ainda, uma forma saudável de autoconfiança.



Guido Guidi, Per Strada, Mack


Per Strada, de Guido Guidi, é uma retrospectiva do seu trabalho ao longo das décadas de 1980 e 1990 na região de Cesena, em Itália. Inclui 285 imagens, a cor e a preto e branco, distribuídas por três volumes, divididos por capítulos; e, em separata, uma entrevista com o autor. As imagens, tal como a entrevista, são um documento do seu pensamento (técnico e filosófico) sobre fotografia e sobre a história da fotografia, da pintura e da arquitectura, e uma expressão continuada de afecto pelo mundo, pelo espaço público, e pela superfície da vida. O conjunto forma uma autobiografia silenciosa, revendo e organizando uma obra magistral, obra de um gigante.



Mark Steinmetz, Past K-Ville, Stanley/Barker

Na sequência de 15 Miles to K-Ville (Stanley/Barker, 2016), Past K-Ville tem como referência esta ‘K-Ville’ ficcional, cidade cuja proximidade se depreende negativamente, como uma regra que não se aplica, ou como a recriminação dos pais quando fumamos os primeiros cigarros nas traseiras do colégio, ou como o próprio colégio quando faltamos às aulas. K-Ville está sempre lá mas nunca aparece, ou aparece por antinomia, indirectamente, no aspecto livre, incerto e periférico do território, e no ar solto, não-citadino e, digamos, desplastificado, das pessoas fotografadas. Ao fixar-se em Knoxville (K-ville?) e mais tarde em Athens, Georgia, no começo dos anos 1990, é provável que Steinmetz tenha reparado na maneira como a distância das cidades grandes se manifesta em diferenças nas superfícies e em diferenças de fisionomia e de gestualidade. Fotografadas em redor de cidades do sul dos Estados Unidos, as imagens deste livro (de 1992-1997) remontam ao período de trabalho que deu origem à trilogia formada por South Central, Greater Atlanta e South East (1991-2001), mais dura e urbana mas não menos lírica que estes (para já, dois) últimos livros relacionados. Tal como os anteriores, Past K-Ville beneficia de um anacronismo saboroso: como se as imagens do livro tivessem sido feitas nos anos 90 como se fossem feitas hoje. Belo e contido, este é também o menos cínico dos livros saídos este ano. Aflorando o drama esquecido das primeiras esperanças, dos primeiros desgostos, das primeiras ligações, de como vida adulta trai, por distracção, as promessas que tínhamos feito a nós próprios, Steinmetz explora neste livro a capacidade da fotografia para nos dar uma visão, não só da superfície da vida em dado momento, como pretendia Winogrand, mas também da interioridade e da complexidade individual. Se restam imagens dos anos 1990 deste calibre nos seus arquivos, rezemos para que venha depressa o terceiro da trilogia.



Gerry Johansson, American Winter, Mack


Este não é sequer o meu livro preferido de Gerry Johansson (Deutschland, Mack, 2012) mas entra por direito próprio nos meus destaques do ano. Para qualquer fotógrafo que se tenha dedicado a clarificar a unidade do seu trabalho (e, num sentido, da sua vida), ou a pensar sobre como montar um fotolivro — como estabelecer relações entre imagens, como estabelecer ritmos, tons, flutuações, rimas —, há algo de escandalosamente refrescante e elegante, e sofisticado, na solução a que Johansson tem recorrido desde sempre: livros quase rigorosamente iguais, ou com poucas diferenças, compostos por imagens quadradas, sempre legendadas, sempre de dimensão reduzida, formalistas, a preto e branco, ladeados por margens amplas, muitas vezes arrumadas alfabeticamente. Zero conversa fiada. Aprendemos com Johansson que não tem de haver uma justificação grandiosa para honrarmos o que nos desperta a atenção. Silencioso, taciturno, American Winter prossegue na toada do costume, repetitiva mas apenas superficialmente monótona, coleccionando quadros austeros, ou mesmo inóspitos, da arquitectura melancólica e da paisagem de pequenas localidades norte-americanas meio caídas no esquecimento. Só isto: a fotografia como um fim em si mesmo. Chega e sobra.



Publicado originalmente na Zum on-line.