NUNO SILVA, LIBERDADE


3.1.18

Excerto de um e-mail enviado a Nuno Silva sobre o seu livro Liberdade (edição de autor, 2018).


“Vou começar pela solução gráfica, que me parece, por duas razões, muito interessante. A mais evidente é a da continuidade entre o objecto fotografado e a escolha de papel e de encadernação — a ironia de construir uma crítica da Av. da Liberdade num meio que poderia muito bem ser um encarte (relativamente luxuoso, se o fosse) distribuído por qualquer uma destas boutiques. A forma escolhida para o trabalho não poderia por isso ser mais adequada, inteligente e, até, decente. Explico esta última parte.

Se, por exemplo, tivesses escolhido fazer um livro de capa dura, forrado, com papel xpto, etc., não resultaria tão bem. Seria, de algum modo, uma contradição. A maneira decente de resolver este livro era fazê-lo à escala sensata e equilibrada em que o fizeste. Fazes assim uma crítica, ou se não quiseres dizer tanto, uma reflexão sobre a contradição entre liberdade e exclusividade, sem caíres na armadilha de produzires um artigo de luxo. (Não que eu tenha alguma coisa contra os livros de fotografia serem, de certa maneira, objectos luxuosos. Apenas, este livro não poderia ser feito de outra maneira.) 

A segunda razão é a das possibilidades de leitura abertas pela divisão das imagens em duas, pela possibilidade de o livro ser, graças a isso, num certo sentido, um jogo.

Sendo um livro sobre liberdade, isso concede ao leitor o benefício de a sua leitura não ser excessivamente controlada pelo autor. Claro que o autor determina mais ou menos as regras do jogo, mas são regras permissivas, libertadoras. Em parte, podemos alterar a ordem dos elementos sem prejuízo da unidade do livro: as diferentes combinações ou justaposições são um elemento de surpresa, não apenas por gerarem leituras múltiplas para cada par de imagens resultante, mas também por reconfigurarem o todo, sem o destruírem. Isso parece-me muito bem conseguido.

Ainda a este respeito a escolha do papel parece-me muito bem feita. Ele é suficientemente deslizante para facilitar este jogo. (Um papel mate, com mais atrito, ia dar muitos problemas e acabaria por dobrar-se, rasgar-se; um papel mais brilhante, com menos atrito, iria ser demasiado deslizante. Este está no ponto.) Além disso, este jogo duplica o efeito criado pela sobreposição do mundo exterior, atrás da câmara, no plano da imagem. Ou seja: há uma dupla sobreposição: a obtida pelo jogo de reflexos e interiores, fixada no plano da imagem; e a obtida pelas diferentes combinações possíveis, cada uma delas gerando novos pares, uma nova sequência e um novo todo — mais uma vez, sem que isso prejudique a unidade do todo.

Politicamente, o livro é muito curioso. Poderia ser um lido como uma resposta a Capitalism and Freedom, de Milton Friedman. Sugerindo reservas quanto a um capitalismo desregulado, ou no mínimo constatando uma contradição irresolúvel entre ‘capitalismo' e ‘liberdade’ (a de uma consequência do capitalismo à solta ser o modo como constrange a liberdade individual de uma parte significativa da população), o livro não deixa de ser completamente liberal a respeito dos costumes, por assim dizer. Isto é, não pretende determinar uma interpretação unívoca, um modo de usar, uma ideologia. Não é um livro de esquerda. Parece-me, antes, liberal-conservador: liberal quanto a costumes, conservador (ou moderadamente pessimista) quanto ao mercado. Não quero com isto caracterizar o autor; apenas o livro. Se for uma descrição do autor, é uma coincidência interessante, mas não era isso que eu queria dizer.

É curioso, também, recorreres a Schopenhauer, o ultra-pessimista, famosamente céptico a respeito das ideias comuns de liberdade. Acho que se enquadra no que acaba de dizer sobre a leitura política do livro. Não sugere bem um liberalismo clássico à Adam Smith, nem o de um von Mises, mas uma concepção mais pessimista da liberdade individual como uma ilusão disseminada. Também nesse sentido — e para voltar às imagens propriamente ditas — me parece eficaz a maneira como exploras os jogos de reflexos (a lembrar Friedlander), os cromatismos sedutores daquelas montras, a maneira como estes são instrumentos daquela ilusão, passando às pessoas sonhos e aspirações ditadas por gabinetes publicitários, etc. De tal maneira que, como as imagens deste livro sugerem, há um sentido em que as pessoas formam auto-imagens já indistinguíveis dos seus reflexos em montras como estas.

Por outras palavras, o livro parece explorar os reflexos dos indivíduos nestas montras, ou a sua sobreposição num plano economicamente inacessível, como descrição adequada da tal contradição entre capitalismo e liberdade e dos desejos de consumo a ela associados.” 



Ver também: nunosilva.photography