PORTUGAL FORMIGA
«O sol deslumbra e cega de raios abrazadores, bate nas côres gritantes das saias, no rodopio dos bailes e dos grupos, incende os movimentos, doira a poeirada do arraial, e por todo o immenso campo chamusca de febre o pictoresco barbaro de toda aquella córja em liberdade. Saloios e saloias dos vales do Tejo e Sado, carmellos colonos da charneca adusta que vae do Pinhal Novo ao deserto dos Pegões e Poceirão; maritimos das pescarias de Cezimbra e de Setubal, catraeiros do Seixal, Barreiro, Aldeia Gallega e Alcochete — petintaes dos bairros fuscos de Lisboa, fadistagem da Mouraria, Alfama, Alcantara e Bairro Alto, operarios frandunos, soldados, marujos, regateiras e mulheritas do povo endomingadas . . . toda esta méscla de plebe, convergida dos burgos mais oppostos, das profissões e mistéres mais divergentes, alli vem esquecer as amarguras da sua faina habitual, e afogar nas farturas crassas dum dia, talvez que a lazeira sinistra de mezes de vida madrasta e precisada!
Tambem, nesse dia de pandega, não ha ninguem com fome ao pé daquella gente. Os aleijados e pobresinhos que se achegam á hora da manduca, os cegos cantores que, mão no hombro dos moços, olhos longinquos, circulam por entre gamellas e chapadas de melão, offerecendo cantilenas, os pequenos vagabundos de mão estendida, lamuriando em bicha, entre verminas e andrajos, nenhum parte sem esportula ou bucha confortante; todos jantam e folgam, porque na sua sentimentalidade mosarabe, este povinho é bonacheirão e compadecido, gostando de consolar, de saber a vida dos que soffrem, e ficar remordendo depois, em lastimas fadistas, a historieta dramatica de cada pedinte que esmolou.
Esta cauda de derreados e coxos que em Portugal formiga, de janeiro a dezembro, em carreiros de miseria, pelas romarias e feiras, á cóca da caridade sentimental das populaças, e que nestes ultimos annos ameaça invadir cidades, e emporcalhar até as ruas largas de Lisboa, deriva talvez, como instituição e maçonaria, daquella côrte de milagres que Victor Hugo poz na Nôtre Dame entre os capítulos illucidantes da leprosa plebe medieva, por elle entrevista nas Hespanhas, e de que nós tambem possuímos pictorescas dependencias. Frequentes vezes teem cabido entre mãos da policia apuntos e denuncias da vasta rede mysteriosa duma especie de federação de mendigos, com sede nas Beiras, e relações commerciaes pelo paiz.
Esta associação dalguns milhares de monstros physicos, recolta os dez réis e vintens da caridade a favor dalguns chefes que accumulam o cargo, com o de larapios e assassinos, e no meio da horrivel tragedia dos aleijados, cegos e idiotas, consegue, dizem, que viver folgadamente.
Ora é um ou outro pequeno macillento, encontrado a dormir ou a chorar na soleira duma porta, e que muito espremido sobre o sítio onde mora e a gente a que pertence, se descose a dizer que pede por conta dum pai d’acaso, que o apanhou na estrada, com fome, ou o comprou na Beira a uma família de emigrantes.
Ora esta historia de sequestro, tão assombrodamente frequente, apesar das leis, apparece complicada de mais terríficos accidentes: puncção dos olhos, para exploração da cegueira, deformação das articulações, cultura do rachitismo e todas as doenças consumptivas e deformantes.»1
Etcétera.
1. Excerto de Fialho de Almeida. «Na Atalaya». À Esquina. Jornal dum Vagabundo, Coimbra: F. França Amado Editor, 1903 (171-174).