«No instante da minha morte, escrevia estes papéis, memórias doutros. Levei anos a desmaquilhar-me e fui-me, ainda assim, de olhos sujos. Percebi tarde, lendo um aforismo, que o estilo nasce de nos projectarmos na eternidade. Pensei que isso significa que nasce nos outros, por pessoal que seja. Não sabia isto. Um dia, lendo um livro de homenagem ao filósofo que escrevera o aforismo, pensei que verdadeiramente memorável seria o filósofo ser o autor de todos os testemunhos que a obra compilava. Tenho pensado no que mudaria no livro, que género de pessoa o escreveria. Tenho tido medo de pensar nisso, medo de me caber um barrete odioso.»


Blumenfeld
(com Djaililia Pereira de Almeida), Lisboa: Relógio D’Água, 2026 (em breve).