Tambem, nesse dia de pandega, não ha ninguem com fome ao pé daquella gente. Os aleijados e pobresinhos que se achegam á hora da manduca, os cegos cantores que, mão no hombro dos moços, olhos longinquos, circulam por entre gamellas e chapadas de melão, offerecendo cantilenas, os pequenos vagabundos de mão estendida, lamuriando em bicha, entre verminas e andrajos, nenhum parte sem esportula ou bucha confortante; todos jantam e folgam, porque na sua sentimentalidade mosarabe, este povinho é bonacheirão e compadecido, gostando de consolar, de saber a vida dos que soffrem, e ficar remordendo depois, em lastimas fadistas, a historieta dramatica de cada pedinte que esmolou.
Esta associação dalguns milhares de monstros physicos, recolta os dez réis e vintens da caridade a favor dalguns chefes que accumulam o cargo, com o de larapios e assassinos, e no meio da horrivel tragedia dos aleijados, cegos e idiotas, consegue, dizem, que viver folgadamente. Ora é um ou outro pequeno macillento, encontrado a dormir ou a chorar na soleira duma porta, e que muito espremido sobre o sítio onde mora e a gente a que pertence, se descose a dizer que pede por conta dum pai d’acaso, que o apanhou na estrada, com fome, ou o comprou na Beira a uma família de emigrantes.
Ora esta historia de sequestro, tão assombradamente frequente, apesar das leis, apparece complicada de mais terríficos accidentes: puncção dos olhos, para exploração da cegueira, deformação das articulações, cultura do rachitismo e todas as doenças consumptivas e deformantes.»1
Na literatura portuguesa, quase nada se escreveu sobre esta gente, este horizonte. Lapidar, esplêndida, meio detestável, sobrevive, sintomática, a crónica de Fialho de Almeida. A esta gente, a cidade chama «aquela gente», então, fui ver se a via — e vi. E era tudo bastante mais feio e era tudo bastante mais belo. Demorei dez anos a saber dizer isto.
Quando lá cheguei, já não havia festa. Apenas o estilo da festa, na superfície da vida. A memória disposta como cascas de melancia na berma da estrada da fábrica. Figueira triste, asfalto e ervas, luz lateral. Se é dali que eu venho, «tudo, no mundo,» penso muitas vezes, «existe para ir dar a um livro». Não, Mallarmé; e também não, Baudelaire. É o que a fotografia, e a Margem Sul, me ensinaram. Nem tudo vira alegoria, quase tudo vira estendal.