«Tem-me acontecido estar a ler um livro, um insecto corre através da mancha e mal viro a vista, já dou comigo a afastar com a aresta da mão o número de página impresso a um canto. A seguir, enxoto a impressão do mosquito com um movimento mental na direcção do texto, na direcção da linguagem, das personagens, das falas, e sinto-me, não sei, a salvo? Sim, a salvo. Parece por momentos que vamos todos viver para sempre.
Levanto os olhos. Pouca gente na esplanada. Um casal sem filhos afaga um velho galgo. Sorrio-lhes. A empregada sorri. É uma jovem magrita que cresceu por aqui. Tem um andar sopegado, de mão à cintura, como uma criança cansada de correr. Cara bem portuguesa, franzida, de olhos miúdos e sobrancelhas do povo num filme antigo. Morena, cabelo atado num elástico e penteado com os dedos sobre as orelhas, pequenos brincos de argola e, num segundo furo um pouco acima no lóbulo direito, uma pequena zircónia reluz. Os lábios são finos, os dentes de tabaco encavalitam para dentro e a voz matreira, usa-a para se meter com os clientes, ou descrever façanhas de terceiros. De vez em quando, faz uma pausa. Senta-se na soleira das casas ao lado a fumar, cerra os olhos ao travar o fumo e o pensamento vai para memórias antigas e para acontecimentos recentes. Governa-se com pouco. Lembra ao mesmo tempo a sua própria filha e a sua própria avó, embora, como esta, pareça virgem. Na casa dos trinta, mantém a aparência de gato da ninhada.
A sua vida amorosa deve ser mais interessante do que parece.
Às vezes, também me acontece estar a ler um livro e sentir-me como embalado por uma brisa. A dado instante, a leitura ou a consciência em contacto com a paisagem lida liberta pensamentos sem relação com o livro. São associações, memórias, analogias, que se vão descolando dos acontecimentos e das personagens e das falas e dou comigo a prestar atenção a um sussurro paralelo e acho que entrei sem querer num outro livro ou por assim dizer numa forma, numa promessa, num preâmbulo, num imperativo. É a intuição de alguma coisa sem rosto a morder um anzol numa linha fantasma, e já esquecido das figuras diante das quais tudo isto se desenrolava, pego na caneta e arranho algo como linguagem.
Parece que fisgo uma sombra, uma orelha, parece que já não foge, aquilo luta, resiste, puxa — e às tantas, não sei, deixa de puxar? parou? para onde foi? e o que quer que fosse, o que quer que seja, responde-me na voz do meu avô. “Tens de aprender a distinguir o toque do peixe do toque do limo, filho.”
Levanto os olhos para o casal sem filhos, mas já não estão lá. Outro aparece. É agora um desses casais vestidos de progenitores. Deslocam-se como rulotes atreladas à personagem. Parecem saber um segredo. A empregada estuda-os sem inveja, terminando o cigarro. O bebé fita-me fixamente. Sou transportado para os estranhos que terei fitado do colo dos meus próprios pais. Que diferente, o país deles, e a vida adulta. E cismo na frase de Baldwin, “as crianças são sempre nossas, todas elas, em todo o lado”, e como levado para longe da costa pela maré alta, cismo no aspecto do mundo, quando gerarem filhos, os filhos, quando todos tivermos morrido.»
Excerto de Onde Queremos Viver, com Djaimilia Pereira de Almeida. Lisboa, Relógio d’Água, 2026. Em Fevereiro nas livrarias.