Propriedade, digamos, sentimental

A ocupação deste território depende de uma promessa sinistra feita a migrantes sazonais por José Maria dos Santos, proprietário da Herdade de Rio Frio em meados do séc. XIX. Ser-lhes-ia cedido um pequeno lote de terreno, de que seriam proprietários no instante da sua morte, desde que ali se fixassem a trabalhar as terras até ao final da vida. O sentimento ou a ficção da propriedade por via de uma nesga póstuma no interior de uma área vastíssima: algo que deixar aos filhos e aos netos. Da transformação da terra nullius em latifúndio por via de um sistema de foros, duas ou três testemunhas vivas recordam com olhos brilhantes uma existência feudal próxima da servidão. Mas havia tudo e porcos. Capela e correio e carreira directa e posto da guarda e ambulatório e salão de festas e campo da bola, havia o forno do pão dos ricos e o forno do pão dos pobres e as oficinas fabricavam as suas próprias peças, e de noite ressonava gente e fazia lá a sua vida harmoniosamente em camaratas separadas por género, em esteiras fofas, entre pomares e capoeiras e cães à solta. E a certa altura até passou a haver a quarta-classe, para quem quisesse.
       Apesar disso, a descendência não se fixou. Na sequência da industrialização e mais tarde da reforma agrária e de novas formas de indústria e comércio, afastou-se ao longo das gerações para longe da esfera rural: Pinhal Novo, Montijo, Barreiro, Seixal, Almada, Cacilhas, Setúbal. Deslocação cujas complexidades não se acumularam sem numerosos erros e trafulhices, a que chamamos carinhosamente «a Margem Sul». De pastoril, resta vagamente o montado e uma malha adjacente de explorações intensivas ali à volta, já sem ligação com a gleba, coladas a estradas agrícolas que levam a estaleiros e a construções interrompidas e a subestações e a lotes murados, avos de hectares com algumas cepas semi-esquecidas e magnólias semi-gloriosas a alegrar casas de taipa e adobe, modernizadas a chapa e mármore, a metros das quais dorme uma égua cheia de carraças à sombra dos eucaliptos à beira da sucata, ao lado de um tractor desmanchado
       Onde estava a “harmonia”, casebres e parabólicas. Sobram caçadeiras, as variadas fobias do presente, estendais. E é para estes que me vejo sobretudo atraído. Estendais nas áreas comuns, pequenas instalações anónimas e angulares, sobrevivências da forma da ocupação. Dos arranjos inconscientes, como lhes chamou alguém, da ocupação particular de espaços comuns e impessoais, nossos na estrita medida em que não nos pertencem, fronhas e roupa interior à vista geral, monumentos casuais da manifestação pública do foro privado, da forma da propriedade sem a propriedade, ou antes, do sentimento da propriedade sem a propriedade, da propriedade, digamos, sentimental. 
        E então olho para eles e vejo ali o resto que venho fotografando por estas bandas; e então olho para eles e vejo, via privada na via pública, a forma da própria fotografia; e então olho para eles e vejo a forma das minhas frases.


IMAGENS